• Vicky

King ganhou seus dois monumentos em forma de música.

Muitas pessoas sabem do envolvimento do U2 com a figura de Martin Luther King, nutrido em especial pela grande admiração de Bono por esta importante figura, e ao fazerem isso logo a primeira música a vir a cabeça e aos ouvidos é "Pride (In The Name of Love)".


Porém, ela não é a única música a ter King como fonte de inspiração. No mesmo álbum da sua “irmã mais famosa”, The Unforgetable Fire lançado pela banda em 1984, encontramos a belíssima “MLK” como a última faixa do disco.


Após o encerramento da sua até então maior turnê, a War Tour, o U2 talvez pela primeira vez na sua carreira – um caminho que depois se tornaria repetido em outras ocasiões – decidiu procurar um novo local, um novo ambiente e uma nova sonoridade para as suas músicas. Tendo gravado os seus três primeiros álbuns no Windmill Lane Studios em Dublin com produção de Steve Lillywhite, dessa vez era chegada a vez de procurarem um novo lugar para receber suas novas canções, e o local escolhido não poderia ser mais épico:


Slane Castle, localizado nos arredores da capital irlandesa. Para a produção dois nomes de peso: Brian Eno (que já dispensava apresentações tendo trabalhado com nomes como David Bowie e Talking Heads) e Daniel Lanois.

Daniel Lanois e Brian Eno nas gravações no Slane Castle.

Se “War” foi guiado por um som que lembrava muito do que seu título representava: guerra, especialmente com bateria com a forte influência dos toques de bandas marciais por exemplo, “ The Unforgetable Fire” trazia uma sonoridade mais “lírica” a banda, influenciado pelo ambiente e pela sensação de envolver que a ouvia mais do que causar um certo incomodo ou estranheza. "The Unforgetable Fire era um disco maravilhosamente desfocado, embaçado como uma pintura impressionista, muito diferente de um outdoor ou de um anúncio publicitário”, de acordo com as palavras de Bono. Lembrando que a inspiração para o nome do disco segundo a banda foi uma exposição de arte japonesa que haviam visitado em Chicago, visitaram em Chicago mostrando imagens inspiradas pelo bombardeio sofrido na cidade de Hiroshima durante a Segunda Guerra Mundial.

The Edge durante as gravações


Voltando a Martin Luther King, a já citada Pride, segunda faixa do disco e a que acabou se tornando o primeiro single a ser lançado, pode ser considerada uma música com ânsia, com fúria, um grito, um grande hino para que a lembrança do legado de Dr. King jamais fosse deixado de lado. Eles podiam ter tirado a sua vida, mais jamais tirariam o seu orgulho.


Já a suave “MLK”, encerra álbum como uma verdadeira canção de ninar, com frases singelas e uma tom de voz doce, ela surge como uma promessa para as gerações que vieram e que ainda estavam por vir – e que ainda estão a vir - : embora a estrada a sua frente possa ter trovoadas e chuva, isso também passará e seus sonhos poderão ser realizados”. O sonho de liberdade, de direitos iguais.


As fontes de inspiração para as letras, além da própria figura do grande líder, foram dois livros lidos por Bono na época: a biografia do outro importante figura no movimento dos direitos civis nos Estados Unidos: Malcom X e a biografia do “Dr. King: Let The Trumpet Sound: The Life of Martin Luther King, Jr.”, escrita por Stephen B. Oates.


“MLK” se tornou um dos xodós da banda nos anos seguinte, especialmente nas turnês para o disco da qual fez parte e na The Joshua Tree Tour original, em 1987, quando a cultura dos Estados Unidos serviu como grande estofo para as letras e musicalidade do U2. Ela voltou a aparecer em algumas apresentações da 360, The Joshua Tree Tour 2017 e algumas apresentações especiais nos anos 2000.


Bono e MLK ao longo destes anos jamais se separam, com o irlandês sempre fazendo questão de evocar a memória e as palavras do doutor. Em janeiro de 2004, na data que marcaria o aniversário de 70 anos de King, Bono foi homenageado com o Salute to Greatness’ Awards, recebendo a honraria das mãos da viúva de Martin, Correta Scott King. Na ocasião Bono fez uma analogia entre a luta iniciada nos anos 60 com a atual situação do continente africano e o combate à pobreza e a batalha contra a AIDS e outras doenças que afligem especialmente aos mais pobres do planeta.

Bono e a viúva do Dr. King, durante premiação em 2004.


Mas porque estamos evocando MLK hoje? O Martin Luther King Jr. Day é um feriado nacional celebrado nos Estados Unidos para marcar a data de aniversário deste que mudou o cenário não só do país como de todo o planeta. Ele é celebrado sempre na terceira segunda-feira de janeiro, sendo que a data de nascimento do Dr. King foi em 15 de janeiro de 1929. O feriado foi instituído em 02 de novembro de 1983, pelo então presidente Ronald Reagan.


Na autobiografia da banda, U2 by U2, lançada em 1985, Bono declara: "Nas escrituras eles falam sobre o sangue chorando do chão. E com 'MLK' você tem exatamente isso, o sangue chorando do chão - mas não por vingança, mas por reconhecimento. Naquela época, tive uma conversa com Bob Dylan. Ele disse: "Associamos três reis (Kings) a Memphis. Elvis, “o rei”, é claro. O grande B.B. King. Mas também temos o Martin Luther King. Onde está a sua Graceland, onde está o seu monumento?" "A cidade tinha planos de demolir o motel fora do qual ele foi assassinado. Isso me impressionou."


E assim King ganhou seus dois monumentos em forma de música.



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